Painéis na tarde desta quarta (6) discutiram governança, expansão da conectividade e os desafios estruturais do mercado brasileiro de telecomunicações
O amadurecimento do mercado de provedores regionais e a necessidade de profissionalização da gestão dominaram os debates do painel CEO Talks, realizado durante o primeiro dia de programação do Abrint Global Congress (AGC) 2026, no Distrito Anhembi, em São Paulo.
Em um cenário marcado pela consolidação do setor, aumento da competitividade e avanço acelerado da transformação digital, executivos defenderam que crescimento sustentável passa, necessariamente, por governança, eficiência operacional e inteligência de dados.
Moderado por Breno Vale, presidente da Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint), o encontro reuniu Cristiano Santana, Fabiano Busnardo, José Roberto Nogueira e Rodrigo Pedrosa, que compartilharam experiências sobre expansão operacional, mudanças culturais e transformação dos modelos de gestão para acompanhar a evolução do mercado brasileiro de telecomunicações.
O CEO da Unifique, Fabiano Busnardo, destacou que a capacidade de escalar operações exige mudanças estruturais na forma de administrar as empresas. Segundo ele, o crescimento da companhia levou a uma reorganização interna focada em processos, eficiência e ganho de escala.
“O nosso negócio não é uma corrida de 100 metros, e sim uma maratona. A partir de 100 mil assinantes, começamos a pensar numa mudança de organização de gestão que nos ajudou a ganhar escala. Hoje, estamos próximos de um milhão de assinantes”, afirmou.
Já o CEO da Brisanet, José Roberto Nogueira, ressaltou que a trajetória das empresas brasileiras costuma ser marcada por evolução gradual e amadurecimento contínuo da gestão. Para ele, diferentemente do modelo norte-americano, muitos provedores nacionais cresceram a partir de estruturas familiares antes de avançarem para modelos corporativos mais sofisticados.
“O Brasil é diferente dos Estados Unidos, onde a empresa já nasce pronta para o mercado. Aqui, o negócio começa e vai se aprimorando com o passar do tempo”, disse.
Segundo Nogueira, a Brisanet iniciou, em 2020, um processo mais estruturado de governança corporativa, com definição de planejamento estratégico, fortalecimento da gestão e alinhamento das equipes em torno dos objetivos da companhia.
“O desafio era entender se o time estava alinhado com as nossas estratégias”, afirmou.
Para Rodrigo Pedrosa, a velocidade das transformações tecnológicas elevou a importância da tomada de decisão baseada em dados. Na avaliação do executivo, ter acesso a informações qualificadas se tornou um diferencial competitivo para os provedores.
“O segredo não é apenas tomar a decisão correta, mas tomar a decisão correta na hora certa”, destacou.
Ao longo do painel, os executivos reforçaram que o setor vive uma nova etapa de maturidade, na qual crescimento deixa de depender apenas de expansão comercial e passa a exigir estruturas mais robustas de governança, gestão financeira, eficiência operacional e capacidade analítica para sustentar competitividade em longo prazo.
Compartilhamento de Postes
O avanço das discussões sobre o novo modelo de compartilhamento de postes dominou um dos painéis mais estratégicos do Abrint Global Congress (AGC) 2026. O debate reuniu representantes das agências reguladoras, entidades do setor e distribuidoras de energia para discutir os desafios da atualização das regras que disciplinam o uso da infraestrutura compartilhada entre empresas de telecomunicações e concessionárias elétricas.
Moderado pelo jornalista Rafael Bucco, o painel “Compartilhamento de Postes: o caminho para um modelo sustentável” ocorreu em meio ao avanço da nova resolução conjunta entre Aneel e Anatel, aprovada no fim de 2025 para atualizar as regras vigentes desde 2014.
A proposta estabelece medidas para disciplinar o uso da infraestrutura, incluindo um preço de referência temporário de R$ 5,84 por ponto de fixação e novas obrigações de regularização dos cabos instalados nos postes.
Durante o debate, José Borges, superintendente de Anatel, afirmou que um dos principais próximos passos será ampliar a discussão junto à sociedade por meio de consulta pública. Embora o debate sobre preços envolva critérios objetivos, ele afirmou que o principal entrave atualmente está relacionado às disputas jurídicas em torno do tema.
“O que está emperrando a discussão são questões jurídicas, sobre as quais não temos controle. Por isso a consulta pública é importante para chegarmos a um bom preço”, disse.
Já Basílio Perez reforçou o posicionamento da entidade em defesa de um modelo mais independente de governança para a gestão dos postes. Segundo ele, a Abrint defende a criação de uma figura de “posteiro” independente, sem vínculo direto com Aneel ou Anatel.
“Nós defendemos, desde o início, que os posteiros fossem independentes, sem ligação direta nem com a Aneel nem com a Anatel”, destacou.
Na avaliação de Onofre Neto, o compartilhamento de postes é um tema de alta complexidade regulatória e operacional, que exige atuação coordenada entre todos os agentes envolvidos. Segundo ele, tanto Aneel quanto Anatel vêm tratando o tema com seriedade, mas ainda existem divergências importantes sobre o modelo de gestão da infraestrutura.
“O principal impasse hoje é a definição do agente posteiro”, afirmou.
AGC 2026
O maior evento mundial do setor de provedores de internet teve início nesta terça-feira (5), no Distrito Anhembi, em São Paulo, reunindo representantes do setor de telecomunicações, autoridades públicas, reguladores e especialistas de mais de 40 países.
O Abrint Global Congress (AGC) 2026 segue até sexta-feira (8) e deve receber, nos quatro dias de evento, mais de 45 mil participantes, consolidando o Brasil como um dos principais polos globais de debate sobre conectividade, infraestrutura digital e inovação tecnológica.
Ao todo, mais de 250 empresas participam do congresso neste ano, que vai contar com 110 plenárias e debates, além de mais de 80 horas de conteúdo técnico e estratégico.
Confira a programação completa: